Música em efeito sépia

Os anos 80 e 90 foram pródigos na criação de inusitados produtos televisivos. Seja pela abertura que se seguiu à ditadura militar, buy seja pelo avanço tecnológico do setor de TV, tal período ofereceu às famílias um confuso cardápio de programas. De um lado do dial, aqueles de vanguarda que testavam os limites morais da sociedade brasileira e que davam ao entretenimento um frescor campestre e alegre. Do outro, os que exalavam o odor forte de naftalina e utilizavam a mesma linguagem dos anos 70. Este era o caso do curto noticiário “A Semana do Presidente”, produzido pelo SBT, com sua inconfundível marchinha de abertura e com a voz do narrador Lombardi – era um desses programas que rescendia ao baú empoeirado dos tempos idos.

No atual contexto, parece que o programa poderia novamente ser televisionado.

A agenda de Temer, na real corrida das narrativas pós-impeachment, busca uma afirmação, uma forma um pouco farsesca de se fazer aparecer como governo de ação, de mudança, de renovação, de solução. O problema é que este mesmo governo é sustentado pelo modelo de coalizão um tanto fisiológico que sempre imperou no centralismo político brasileiro. Daí que ouvir o timbre desarmônico do Ministro do Trabalho falar sobre as alterações da CLT é como ouvir a ponta da faca a esganiçar a louça.

Que o sistema trabalhista e previdenciário necessita de mudanças, parece evidente a qualquer um que não passou a última década em Marte. Após os brados retumbantes da globalização digital, realmente nossa bossa talvez não esteja mais tão nova. A alteração dos direitos sociais e previdenciários terá que contar com um amplo debate acerca de onde queremos chegar nos próximos 30 anos, mas o governo ainda enfrentará o embate daqueles que sequer querem chegar aos dias atuais e preferem dançar seguindo a batuta de Ray Conniff.

O próprio governo já deu sinais de que nada de muito grande ocorrerá no Intermezzo. A postergação da reforma trabalhista para o segundo semestre de 2017 e a criação de um projeto sempre ‘muito trabalhado e pensado’ de reformar a previdência – mas que nunca deixa de ser projeto – são expectativas frustradas da sociedade brasileira que, pelo ritmo atual, continuarão a ser o que são, isto é, expectativas. Os indicativos de mudança aparecem de forma descompassada, com idas, vindas e rupturas dignas das tragédias do mundo da ópera.

O que não podemos esquecer é que esta já combalida sonata terminará em leis – e que tais precisarão respeitar limites constitucionais delicados e complexos. Os direitos sociais e o regime previdenciário, vistos como conquistas da nossa história, são estruturas centrais da Constituição Federal e são, sempre, trazidos à discussão judicial como direitos fundamentais e adquiridos. Reformas realizadas a partir de emendas parlamentares das últimas horas e que deixem de olhar para a Carta Magna poderão gerar passivos judiciais monstruosos.

Espera-se algum alento nos projetos e na comunicação governamental. Até o momento o que vimos foi uma agenda um tanto conservadora – mas que provisoriamente agradou um pouco os ouvidos do mercado. Todavia, se nossa oferta se limitar a um jukebox de marchinhas emboloradas, sofreremos a desilusão da pista vazia no baile da integração internacional e do desenvolvimento social.

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