Gritos no salão vazio

Neste outubro tivemos parte daquilo que se alcunhou de a grande festa da democracia: o momento das eleições. A se pensar bem, a metáfora não é de todo ruim. Uma boa festa é barulhenta e confusa, possui convivas dos mais diversos tipos, tem humor, algumas discussões e diversão, causa uma sujeira generalizada – mas reconheçamos que o emporcalhamento das cidades tem sido menor – e ao seu final alguns vão para casa com um amargor de desânimo e arrependimento enquanto outros poucos preferem continuar a celebrar em algum outro lugar.

Mas o que acontece quando o convidado não comparece? Esta foi a questão que surgiu em diversos meios de comunicação em vista de uma evolução, já sentida nas eleições gerais de 2014 e nas municipais de 2012, do número de ausentes e de votos brancos e nulos. No município de São Paulo, o maior do país, as eleições majoritárias se resolveram no primeiro turno, sendo que o candidato mais votado teve menos votos do que o total de ausentes, brancos e nulos. Chegou-se ao inédito patamar de 38% de não participantes diretos da escolha do alcaide vitorioso. 

Uma explicação seria uma certa fábula da ‘crise de representatividade’. Em uma democracia tão nova quanto a brasileira, talvez o período em que não estivemos em crise de representatividade é que devesse ganhar um termo sociológico. Temos, sim, um eleitorado continuamente insatisfeito com seus representantes e que muitas vezes preferiu eleger celebridades, palhaços ou figuras proféticas ao invés de fazer o laborioso dever de casa de pesquisar, escrutinar, selecionar e posteriormente fiscalizar seus representantes. A isso se some a noção de que em diversas capitais a figura do ‘homem gestor’ ou o ‘externo à política’ ganhou vez e voz. Este real penetra ingressou bradando algo como “não sou de festa, mas estou no meio dela”. É figura peculiar, mas que dada a libertinagem do encontro com os convivas, aceita-se… mas não sem um simpático muxoxo de descrença.

Outra questão a se debater é exatamente a da capacidade de resposta de nossas representações políticas. Foi voz contínua a noção de que a população já começa a perceber que a classe política vem sendo ineficaz em responder a seus anseios. A eficácia contínua do sistema político também pode facilmente ser colocada em dúvida, haja vista que o Brasil, mesmo reduzindo desigualdades nas últimas décadas, ainda possui níveis alarmantes do abismo que separa ricos de pobres, parece ter pedido a janela demográfica de oportunidade de reformas e, pior, agora entra em um novo ciclo de ladeiras a descer. Ao mesmo tempo que tiramos pessoas da miséria, a nova classe média descobriu, como uma verdade-surpresa saída do bolo, que migalha não é pão.

E os confetes descem. Não sabemos exatamente suas cores. São muitas ou são poucas? Quantos partidos, quantos candidatos, quantas mensagens de dez segundos para que cada um de nós encontrasse um único a nos representar. Ficando ainda no município de São Paulo, o número de candidatos a Vereador chegou a 1.315. São somente 55 cadeiras (uma relação de 23 para 1) e a cada munícipe só é atribuído um voto. Afinal, como escolher entre tantas propostas similares de alguns poucos segundos cada? Talvez a própria organização do sistema político nos dê pistas da falta de ligação entre o eleitor e o político. Talvez a internet ou outra ferramenta nos ajude no futuro.

Mas há algo que não orna, uma certa música de fundo que não faz parte dessa nossa balada cidadã. Ouvimos algo abafado que parece vir de outro local. É bastante difícil afastar de nós o sentimento de que o momento é exatamente de efervescência política. Discute-se, como nunca, política nas escolas, nos bares, nas casas de família, nas redes sociais. Casos de perseguição, pichação e achincalhamento – que são formas lamentáveis de estridência individualista e ideológica – pululam no meio das inúmeras passeatas, encontros, paradas e manifestações. São movimentos novos, mesmo quando estimulados por agitadores já experientes. Novas vozes, novos meios, um conjunto de pessoas que já não aceita nem tarifa de ônibus, nem impeachment, nem governo, nem qualquer outra coisa. Politicamente ativos, sim, e bastante insatisfeitos em geral.

A festa da democracia é verdadeira, contínua, crescente e não tem hora para acabar. O que parece é que ela está ocorrendo de outra forma; ela está passando para o lado de fora do salão.

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