Trump, aprendiz de presidente

O cenário assemelha-se a um típico enredo do cinema catástrofe de 1980. Alguns pouquíssimos e desacreditados analistas comentavam a força de Trump e a possibilidade de sua vitória como quem aponta uma nuvem negra e diz ‘o que vem lá é uma hecatombe!’. Mas eram vozes quase afônicas em um fuzuê de críticas, piadas e prognósticos de derrotas do candidato republicano. Tudo indicava para o retorno dos Clinton ao poder, mas o imponderável ocorreu e a grita foi geral. Desesperados, correram para todos os lados os que jamais ponderaram tal possibilidade. Pânico geral.


O pânico nos parece justificado. Trump foi possivelmente o candidato mais controverso dos últimos 20 anos nas eleições dos EUA. Seus rompantes de topete e bico trouxeram ao debate mundial as possibilidades destrutivas de uma nova “velha política”. Um giro de 180 graus, direcionando os norte-americanos para a foto daquele Lincoln Continental – o longilíneo automóvel preto que serviu de limusine presidencial desde Kennedy até Reagan. A multipolarização pré-blocos parece estar de volta ao cenário geopolítico.
Mas o momento é outro e Trump parece tão fora de moda quanto sua postura. Seu ímpeto protecionista, por exemplo, parece desconhecer a globalização da virada do século. Os mais liberais dos republicanos – aqueles que indicam a globalização como uma situação de ganha-ganha e que levaria o mundo ao desenvolvimento geral e fraterno – identificam o epicentro do fenômeno na transferência das plantas industriais para países em desenvolvimento. Trump diz que protegerá sua economia ao realizar o ‘retorno das fábricas’ ao seu país, mas ele precisará combinar isso direitinho com os próprios conglomerados industriais que não indicam ter qualquer pretensão neste sentido. Com tais custos operacionais, talvez eles prefiram investir no lobby político para tirar Trump do salão oval.
O curioso é que, mesmo com este discurso, Trump foi eleito. O fato parece confirmar a máxima de que a democracia é um sistema imperfeito. Vale aqui a reflexão sobre as mudanças de reforma do direito eleitoral em discussão no Congresso brasileiro e, notadamente, a obrigatoriedade do voto, já que Trump foi eleito (também) porque parte substancial do eleitorado não compareceu às urnas (por lá, o voto não é obrigatório).
Na mesma toada anda o ataque ao multiculturalismo. França, Inglaterra e Alemanha já haviam anunciado a morte do multiculturalismo, mas têm tentado manter políticas que olhem para o mundo de forma a unifica-lo. Apesar dos atentados, das mortes, dos fluxos migratórios e das crises internas, ainda não há consenso de uma política contrária à imigração em geral. Trump extrapola o limite da razão ao propor construir muros e deportar latinos com uma cusparada. Obama, que realizou mais deportações em quatro anos do que Bush em oito, jamais utilizou tal verborragia agressiva. O democrata cumpriu as leis do Congresso em silêncio burocrático e deixou para a casuística a discussão, não tratando tais ações como política de Estado.
É difícil saber o quanto isso é bazófia de um populista que diz o que não conseguirá cumprir ou se podemos identificar um real descaso pelo que ocorre no mundo atualmente. Também é imponderável o quanto Trump desrespeitará as leis e a constituição de seu país. Se bem assessorado, não levará grandes tombos e poderá simplesmente parecer um presidente velho para um mundo novo. Acabará implantando políticas um pouco antigas que não mudarão realmente muita coisa. Se meter os pés pelas mãos poderá ouvir do Congresso aquilo que mais gostava de dizer em seu programa de TV mais famoso.
Mas se os prognósticos de alguns analistas desacreditados se tornarem verdade novamente… bem, a geração futura terá que lidar com os escombros e efeitos da destruição.

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