O show eleitoral (as eleições, a Constituição e a preparação dos nossos candidatos)

“Falhar em se preparar é se preparar para falhar”. Corrijam os historiadores, mas possivelmente a frase de Benjamin Franklin serviu o espírito da Guerra da Independência dos Estados Unidos e certamente refletiu o que fizeram os americanos a partir do século XVIII para transformar o país na maior potência econômica do mundo moderno.

Nossos irmãos de continente levaram menos de dois séculos e meio para a tarefa. O mesmo período foi estimado pelo Banco Mundial para que por aqui aprendamos a ler e dominemos a leitura como eles já o fazem[1].

O segredo da preparação para qualquer tarefa está já incorporado à cultura de países que desenvolveram a capacidade de realização de seus povos. É visível no ambiente profissional a diferença entre os que se preparam e os que falham em se preparar. Assim é, com ainda mais causa, na política e nos cargos de gestão de países e cidades, nestas posições em que as decisões impactam centenas, milhares ou milhões de pessoas.

E todo ano em que há eleição vemos sempre qual o valor que os eleitores dão ao preparo. Leia-se o termo no seu sentido mais amplo. Preparo não só técnico, na ciência e no aprendizado das matérias que servem à boa administração logística, econômica e humana. Preparo moral, no sentido do histórico de comportamento dentro da lei e da ética. Preparo político, no domínio desta ciência – não temos outra – que organiza a representação da nossa sociedade.

Entre os candidatos da nossa história, um que nunca foi eleito presidente ganhou notoriedade ao usar os poucos segundos que a regulamentação eleitoral lhe franqueava para se apresentar e bradar seu nome: “Meu nome é Enéas!”. O impacto e a reprodução muitas vezes caricata desta expressão o tornaram conhecido a ponto de as pessoas começarem a ouvir o que ele tinha para dizer além do próprio nome. Vistas e ouvidas as entrevistas, falas e discursos deste candidato, percebe-se a ênfase que dava ao seu currículo acadêmico, o valor que dava à preparação para o cargo de presidente, a crítica mordaz e raivosa que fazia do adversário então eleito sob a mentalidade declarada e transformada em discurso de que tinha preguiça de ler e orgulho de ter prescindido da formação acadêmica.

Algumas eleições depois, chegamos a 2018 com a possibilidade concreta e agora aparentemente afastada de termos um candidato que não precisaria gritar o nome para ganhar notoriedade. O apresentador Luciano Huck foi colocado em jornais e pesquisas como uma alternativa real e concreta para a Presidência da República. Ganhou apoios importantes e enquadrou a sua ameaça de candidatura na moldura da renovação. E assim ganhou o coração sem esperança dos eleitores cansados do velho e passou a ser visto como uma alternativa real e séria para governar o país. Ele mesmo declarou que não ter interesse e abdicou do certame eleitoral. Assim o fenômeno está aparentemente encerrado.

Em tempos eleitorais, tempos de exigência sobre nossa ordem constitucional, nós do A Constituição passamos a imaginar como seria a campanha de Luciano Huck, tivesse ele os mesmos poucos segundos do candidato Enéas Carneiro. O que deveria bradar o candidato novo, nos tempos de hoje?

Gritar o nome seria desnecessário e estranho, porque todos já o conhecem. Se notoriedade já existe, haveria preocupação com o preparo para o cargo? Deveria Luciano Huck gritar: “Sou preparado!” ao som de fundo triunfante da Quinta Sinfonia de Beethoven? Também não. Não seria esta a estratégia adotada. Possivelmente o brado instantâneo de campanha seria algo referindo abstratamente a novidade, o novo, a contraposição com o velho. Nunca a concreta preparação para o cargo, o histórico acadêmico, a experiência administrativa.

Exercício da imaginação, mas nada improvável no quadro eleitoral e cultural do nosso país. Os bordões eleitorais dizem muito porque são estudados no traçar do caminho inverso – entre o que pensa o eleitor e o que diz o candidato. Nós eleitores, não raro, temos a cara e o significado dos bordões dos nossos políticos.

A Constituição Federal obrigou-nos a votar e nos deu a liberdade de escolha. O voto é secreto, direto e universal. É uma configuração que trata com amplitude e liberdade o exercício da soberania popular[2]. Todo poder emana do povo e pelo voto – entre outros meios – deve ser exercido.

Neste ano, assistiremos às eleições. Veremos os candidatos e seus bordões eleitorais. Fosse Enéas Carneiro o candidato, voltaria a bradar seu nome e a pregar preparação. Fosse Luciano Huck o candidato, a sua antítese em carisma e preparo, talvez o melhor bordão devesse ser o que ele próprio criou para apresentar as atrações do seu programa: “Loucura, loucura, loucura!”.

Veremos quanto importam o carisma e a popularidade e quanto contam a preparação e a experiência de cada candidato. Veremos, mais uma vez, o que pensa eleitor, qual seleção faz, por hierarquia e prioridade, de cada qualidade e cada defeito dos nossos candidatos. E talvez, ao final da eleição, acabaremos constatando conformados que as nossas eleições ainda são muito parecidas com um show de televisão.

 

[1] https://g1.globo.com/educacao/noticia/alunos-brasileiros-vao-demorar-260-anos-para-atingir-indice-de-leitura-dos-paises-rico-diz-banco-mundial.ghtml

[2] Art. 14. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante:

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