O show eleitoral (as eleições, a Constituição e a preparação dos nossos candidatos)

“Falhar em se preparar é se preparar para falhar”. Corrijam os historiadores, mas possivelmente a frase de Benjamin Franklin serviu o espírito da Guerra da Independência dos Estados Unidos e certamente refletiu o que fizeram os americanos a partir do século XVIII para transformar o país na maior potência econômica do mundo moderno. Nossos irmãos de continente levaram menos de dois séculos e meio para a tarefa. O mesmo período foi estimado pelo Banco Mundial para que por aqui aprendamos a ler e dominemos a leitura como eles já o fazem[1]. O segredo da preparação para qualquer tarefa está já incorporado à cultura de países que desenvolveram a capacidade de realização de seus povos. É visível no ambiente profissional a diferença entre os que se preparam e os que falham em se preparar. Assim é, com ainda mais causa, na política e nos cargos de gestão de países e cidades, nestas posições em que as decisões impactam centenas, milhares ou milhões de pessoas. E todo ano em que há eleição vemos sempre qual o valor que os eleitores dão ao preparo. Leia-se o termo no seu sentido mais amplo. Preparo não só técnico, na ciência e no aprendizado das matérias que servem à boa administração logística, econômica e humana. Preparo moral, no sentido do histórico de comportamento dentro da lei e da ética. Preparo político, no domínio desta ciência – não temos outra – que organiza a representação da nossa sociedade. Entre os candidatos da nossa história, um que nunca foi eleito presidente ganhou notoriedade ao usar os poucos segundos que a regulamentação eleitoral lhe franqueava para se apresentar...

2017: ajustando o foco

Quando Galileu Galilei utilizou a invenção holandesa para observar os céus, viu algo que lhe causara surpresa, mas que confirmara suas mais interessantes intuições. O telescópio do século XVII foi realmente uma tecnologia fabulosa que nos períodos posteriores permitiu ao homem conhecer muito mais sobre o seu lugar no cosmos e o funcionamento do espaço. Foi necessário um exercício – no caso científico – de ajustar as lentes para observar aquilo que interessava ao espírito humano. Pois entramos em 2017 com um duplo desafio: temos que observar o macro e o micro em todas as suas complexidades e detalhamentos. Com relação ao macro, referimo-nos ao movimento político do governo federal e às reformas nacionais propostas pelo governo Temer. Durante o segundo semestre de 2016 coube ao ora mandatário blindar a si, seus ministros e secretários para não sofrerem também a queda que fez tombar sua outrora parceira de chapa eleitoral e acólitos. Com uma política pragmática típica de um nunca morto centrão, acalmou as bases e abaixou a temperatura da fervura. Se decepou algumas cabeças em prol da imagem de moralidade, afagou pelo caminho alguns cocurutos levados em benefício da governabilidade política. Nesse cenário é que se avizinham as reformas previdenciária, trabalhista e, quem sabe, fiscal. Com o declarado intuito de retirar o país da recessão, sua equipe econômica busca uma posição de austeridade fiscal com corte de gastos públicos e presença constante na mídia do outrora Deputado Federal pelo PSDB, virtual candidato ao posto de Temer na vice-presidência de Dilma e especulado candidato à presidência em 2018, Henrique Meirelles. Já tendo encampado uma das reformas constitucionais mais controversas...

Trump, aprendiz de presidente

O cenário assemelha-se a um típico enredo do cinema catástrofe de 1980. Alguns pouquíssimos e desacreditados analistas comentavam a força de Trump e a possibilidade de sua vitória como quem aponta uma nuvem negra e diz ‘o que vem lá é uma hecatombe!’. Mas eram vozes quase afônicas em um fuzuê de críticas, piadas e prognósticos de derrotas do candidato republicano. Tudo indicava para o retorno dos Clinton ao poder, mas o imponderável ocorreu e a grita foi geral. Desesperados, correram para todos os lados os que jamais ponderaram tal possibilidade. Pânico geral. O pânico nos parece justificado. Trump foi possivelmente o candidato mais controverso dos últimos 20 anos nas eleições dos EUA. Seus rompantes de topete e bico trouxeram ao debate mundial as possibilidades destrutivas de uma nova “velha política”. Um giro de 180 graus, direcionando os norte-americanos para a foto daquele Lincoln Continental – o longilíneo automóvel preto que serviu de limusine presidencial desde Kennedy até Reagan. A multipolarização pré-blocos parece estar de volta ao cenário geopolítico. Mas o momento é outro e Trump parece tão fora de moda quanto sua postura. Seu ímpeto protecionista, por exemplo, parece desconhecer a globalização da virada do século. Os mais liberais dos republicanos – aqueles que indicam a globalização como uma situação de ganha-ganha e que levaria o mundo ao desenvolvimento geral e fraterno – identificam o epicentro do fenômeno na transferência das plantas industriais para países em desenvolvimento. Trump diz que protegerá sua economia ao realizar o ‘retorno das fábricas’ ao seu país, mas ele precisará combinar isso direitinho com os próprios conglomerados industriais que não indicam ter qualquer...

Gritos no salão vazio

Neste outubro tivemos parte daquilo que se alcunhou de a grande festa da democracia: o momento das eleições. A se pensar bem, a metáfora não é de todo ruim. Uma boa festa é barulhenta e confusa, possui convivas dos mais diversos tipos, tem humor, algumas discussões e diversão, causa uma sujeira generalizada – mas reconheçamos que o emporcalhamento das cidades tem sido menor – e ao seu final alguns vão para casa com um amargor de desânimo e arrependimento enquanto outros poucos preferem continuar a celebrar em algum outro lugar. Mas o que acontece quando o convidado não comparece? Esta foi a questão que surgiu em diversos meios de comunicação em vista de uma evolução, já sentida nas eleições gerais de 2014 e nas municipais de 2012, do número de ausentes e de votos brancos e nulos. No município de São Paulo, o maior do país, as eleições majoritárias se resolveram no primeiro turno, sendo que o candidato mais votado teve menos votos do que o total de ausentes, brancos e nulos. Chegou-se ao inédito patamar de 38% de não participantes diretos da escolha do alcaide vitorioso.  Uma explicação seria uma certa fábula da ‘crise de representatividade’. Em uma democracia tão nova quanto a brasileira, talvez o período em que não estivemos em crise de representatividade é que devesse ganhar um termo sociológico. Temos, sim, um eleitorado continuamente insatisfeito com seus representantes e que muitas vezes preferiu eleger celebridades, palhaços ou figuras proféticas ao invés de fazer o laborioso dever de casa de pesquisar, escrutinar, selecionar e posteriormente fiscalizar seus representantes. A isso se some a noção de que...

Música em efeito sépia

Os anos 80 e 90 foram pródigos na criação de inusitados produtos televisivos. Seja pela abertura que se seguiu à ditadura militar, buy seja pelo avanço tecnológico do setor de TV, tal período ofereceu às famílias um confuso cardápio de programas. De um lado do dial, aqueles de vanguarda que testavam os limites morais da sociedade brasileira e que davam ao entretenimento um frescor campestre e alegre. Do outro, os que exalavam o odor forte de naftalina e utilizavam a mesma linguagem dos anos 70. Este era o caso do curto noticiário “A Semana do Presidente”, produzido pelo SBT, com sua inconfundível marchinha de abertura e com a voz do narrador Lombardi – era um desses programas que rescendia ao baú empoeirado dos tempos idos. No atual contexto, parece que o programa poderia novamente ser televisionado. A agenda de Temer, na real corrida das narrativas pós-impeachment, busca uma afirmação, uma forma um pouco farsesca de se fazer aparecer como governo de ação, de mudança, de renovação, de solução. O problema é que este mesmo governo é sustentado pelo modelo de coalizão um tanto fisiológico que sempre imperou no centralismo político brasileiro. Daí que ouvir o timbre desarmônico do Ministro do Trabalho falar sobre as alterações da CLT é como ouvir a ponta da faca a esganiçar a louça. Que o sistema trabalhista e previdenciário necessita de mudanças, parece evidente a qualquer um que não passou a última década em Marte. Após os brados retumbantes da globalização digital, realmente nossa bossa talvez não esteja mais tão nova. A alteração dos direitos sociais e previdenciários terá que contar com um amplo debate...

Supremo no olho do furacão

Guardião da Constituição Federal: este é o papel reservado ao grupo de notáveis sabatinados pelo Senado e indicados pela Presidência da República. Assim, cialis simbioticamente colocado na balança da tripartição de poderes, salve o Supremo Tribunal Federal é tido como a instância final do ordenamento jurídico-político. O que se esperar de tais cabeças pensantes? Obviamente que buscamos a serenidade e a consciência, sovaldi a altivez de quem olha para o país de forma institucional e pondera, mirando o longo prazo, os efeitos das suas manifestações e decisões. É o grupo que pensa o país não enquanto projeto ou como alteração social, mas como coerência entre povo e governo, garantindo que no estranhamento dos direitos e deveres o pais continue estável e seguro. A função de pacificação da nação, protegendo a ordem e defendendo as minorias, parece repousar atenta sobre o colo do Supremo. Diz o dicionário que supremo é o derradeiro, o último, o extremo; compara-se ao altíssimo, aquele que está acima de tudo e de todos (ah, o sabor das definições!). É daí que surge a importância de seus ritos, de sua liturgia sóbria, a solenidade de suas audiências. Deve-se preservar, em todos os seus atos, a retidão moral e o respeito à própria Carta Magna para que ele se mantenha nas alturas. Mas neste momento a tormenta do noticiário está parada sobre o Supremo. Constam ao menos duas questões que têm incomodado a população mais informada: o aumento dos vencimentos dos Ministros e as informações vazadas da Lava-Jato, que supostamente atingiriam um de seus membros. É sabido que o gasto com a estrutura política não é nada...
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